Professor analisa crise hídrica em São Paulo

A população do Estado de São Paulo nem se recuperou da maior crise hídrica enfrentada nos últimos 30 anos e o medo com a falta de água já volta a assombrar os paulistas. Com o período de chuvas desde o final do ano passado, represas e reservatórios ganham sobrevida e o caos da falta de abastecimento para milhões de pessoas caiu no esquecimento das pessoas e principalmente da grande mídia. Entretanto, com o início da época de seca no mês de maio, em que os índices de chuva despenca, o sinal de alerta volta a ser acionado. O Governo de São Paulo, como fez durante toda a crise, ignora o problema e a principal obra contra a falta de água na região metropolitana, que fará a ligação do Sistema Rio Grande para socorrer o Sistema Alto Tietê, está atrasada. Segundo o governador Geraldo Alckmin (PSDB), a ligação já estaria funcionando em Maio, mas com o fim de abril as obras nem foram iniciadas ainda. Para fechar, as chuvas até o momento não foram suficientes para recuperar os níveis normais dos reservatórios. Será que vai começar tudo de novo?

Em reportagem especial, entrevistamos o Professor Valter Alexandre de Oliveira, formado em Geografia pela Unesp de Rio Claro e docente do Colégio XV de Agosto, para analisar a atual crise hídrica no Estado de São Paulo. Confira:

Sistemas como Cantareira, Alto Tietê, Guarapiranga, Rio Claro, entre outros, vão conseguir recuperar e manter a capacidade de seus reservatórios ao longos do próximo ano?

Os casos mais graves são dos sistemas Cantareira e Alto Tietê, ambos operando com o chamado volume morto. Eles certamente não recuperarão neste ano. No caso do Cantareira, as chuvas de fevereiro (cerca de 60% acima da média histórica) e março (até o dia 17 com 88% da precipitação prevista para o mês todo) só foram suficientes para repor o segundo volume morto, elevando a reserva de 5% (menor nível registrado durante a crise) no início de fevereiro, para um pouco mais de 15% no momento. Para que chegasse ao nível zero do volume útil, ainda seria necessário atingir o índice de 29,2%. O alto Tietê opera com 22%, já utilizando o volume morto. No caso dos outros sistemas, todos estão com seus níveis dentro do esperado, mas possuem uma capacidade bem menor que os dois mencionados.

Planejamento e realização de obras por parte do Governo do Estado de São Paulo teriam evitado que a falta de abastecimento tomasse à proporção que vivemos hoje, principalmente na Grande São Paulo?

Certamente teria amenizado. Um dos grandes problemas do sistema de abastecimento São Paulo é um altíssimo índice de perda, que gira em torno de 30% de toda água tratada. Uma das razões que explicam essa situação são os canos de distribuição antigos, que frequentemente apresentam problemas de vazamento que respondem por cerca de dois terços desse desperdício, enquanto as ligações clandestinas são responsáveis pelo resto. Além disso, existe um antigo projeto para a construção de um novo reservatório na região do Vale do Ribeira, que certamente elevaria consideravelmente a de água. A execução deste projeto está sendo discutida, mas seria algo para um longo prazo, cerca de 10 anos.

De modo geral, é possível afirmar que nos próximos anos a crise de desabastecimento pode chegar ao interior do estado de São Paulo? Ou seja, a diminuição nos índices médios de chuva pode afetar a captação em rios e reservatórios utilizados por cidades do interior?

Isso já é realidade. Na verdade, o caso mais grave ocorreu no interior. Em Itu chegaram a ocorrer saques a caminhões pipas. Amparo recebia caminhões de água de cidades vizinhas e outras dependiam da abertura de represas em propriedades privadas. A crise não é exclusividade da região metropolitana.

Qual o impacto da devastação de vegetações nos centros urbanos e mesmo em áreas de captação para o agravamento dessa crise?

O impacto é muito significativo e o maior problema está no desmatamento das áreas de mananciais. Esse tipo de ação potencializa o processo erosivo e, consequentemente, o risco de assoreamento das nascentes. Outro fator importante é que as árvores trabalham como retentores de enxurradas, permitindo que a água infiltre e abasteça os lençóis freáticos. Isso significa que, quanto menos árvores, menor o nível de reposição dos aquíferos. Em resumo: nascentes assoreadas combinadas com a redução das águas daquelas que ainda resistem, resultam num menor volume dos rios e, consequentemente, no comprometimento na capacidade de reposição dos sistemas.

Muitos projetos estão surgindo com o intuito de livrar a população do desabastecimento. O plano do governo de São Paulo prevê obras na casa dos R$ 3,5 bilhões, enquanto associações estudam projetos de dessalinização para utilização da água do mar. Em sua opinião, qual a melhor saída neste momento para evitar a falta de água?

Não há uma fórmula mágica. A dessalinização, por exemplo, demandaria uma quantidade enorme de energia para bombear a água até a RMSP, que está a cerca de 800m acima do nível do mar. Outras grandes obras demandam tempo. Para o curto prazo, a conscientização da população para evitar o desperdício é o primeiro passo. Na realidade, naturalmente, muitas pessoas já perceberam essa necessidade. Em segundo lugar, investimentos em alternativas de armazenamento, como as cisternas. Acredito muito em trabalhos de conscientização dos proprietários rurais para o reflorestamento de áreas de nascentes. Há várias experiências de sucesso nesse sentido, como em Goiás, onde muitas minas que haviam secado voltaram a ter água pouco tempo após os plantios. Esse caso foi matéria do Fantástico poucas semanas atrás sobre a deterioração das veredas.

 A população deve se preparar para passar a conviver com o desabastecimento nos próximos anos?

Que algo está ocorrendo com o clima, parece evidente. O quanto isso se agravará e em que velocidade, não dá para prever. Particularmente sou a favor de um grande e persistente trabalho que procure conscientizar e mudar a forma equivocada com que grande parte da população insiste em lidar com o mais precioso e um dos mais ameaçados recursos naturais.

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