Extinguir ou não as torcidas organizadas?

Meus amigos, o futebol não é um simples jogo. Ele é o reflexo da sociedade, assim como a atmosfera que o cerca. E uma parte importante dessa atmosfera são as torcidas organizadas.

Se você é daqueles que interpreta as torcidas organizadas como algo negativo e violento, tudo bem. Mas peço paciência para que leia até o final, e entenda o que realmente elas são.

A origem das torcidas organizadas foi no decorrer dos anos 30, quando os clubes queriam uma torcida mais participante e vibrante durante os jogos. Ao mesmo tempo em que elas eram institucionais, o governo passou a utilizá-las como órgão fiscalizador, pois o Brasil vivia um período de intensa migração interna e o futebol estava se tornando cada vez mais popular. Era preciso domesticar as massas. Chefe de torcida e chefe de polícia eram sinônimos na época. Pois é meus amigos, as torcidas organizadas, em sua origem, nada tinha a ver com a atual configuração. A grande ruptura aconteceu nos anos 60 quando, durante a ditadura militar, a juventude passou a ter um caráter de protestos, de se manifestar. As organizadas absorvem esse caráter contestador, e passam a atuar como “sindicatos”, reivindicando direitos do torcedor e cobrando time e diretoria. Exemplo disso é a torcida corinthiana Gaviões da Fiel, que surgiu para combater o então presidente do clube, Wadih Helú. Em 1971 houve a criação do campeonato brasileiro, integrando times de todo o país. Nesse momento, tiveram início as “caravanas”, viagens realizadas para acompanhar o time fora de casa. Nesse momento, as torcidas organizadas passam a ser um importante espaço de sociabilização. Elas não ficam mais restritas apenas ao jogo, como era antes. Agora existe uma vida em torno dessa torcida para além do futebol. Os integrantes encontram nas torcidas organizadas um ambiente que agrega qualquer tipo de pessoa, independente de classe, raça ou credo. Mas há um problema e inversão de valores nesse momento, sendo que a torcida passa a ser mais importante do que o próprio time para alguns. As torcidas organizadas cresceram e começou a agregar cada vez mais pessoas, em sua maioria jovens. Mas o crescimento das torcidas se tornou também um problema, pois permitiu que elas se envolvessem em relações perversas com as próprias diretorias dos clubes, e também com outros grupos organizados da sociedade. No decorrer dos anos 80, a violência dentro das organizadas aumenta, e tem o ápice em 1995, na “Batalha do Pacaembu”, que resultou na morte de um são-paulino de apenas 16 anos.

Porém, o discurso de que é necessário extingui-las é ingênuo. Mesmo que isso aconteça, elas continuarão existindo, porém na clandestinidade. E, nesse caso, seria mais difícil ainda combate-las. É necessário combater o indivíduo, e não a instituição.

As torcidas organizadas são a resistência nesse futebol moderno que está tentando adentrar no Brasil, através das Arenas, telões, selfies e o aumento no preço dos ingressos. É muito simples taxar todos de marginais depois que uma briga passa na televisão, com uma cobertura tendenciosa, não é mesmo?

Claro que a violência está presente nelas, e maus elementos também. Mas estes devem se punidos pelo Estado. Ao invés da extinção, é necessário trazer as torcidas organizadas e seus integrantes para um debate público. Trata-los como agentes sociais, e não como marginais. O que está precisando é um reformulação delas, e não sua extinção.

 

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