falta coragem para o povo

Trabalhar com o jornalismo proporciona situações que possibilitam uma análise crítica das coisas e pessoas. O jornalista é por essência um contestador, um crítico, um analista chato e persistente que aponta erros. Geralmente o jornalista está ao lado do povo, fornecendo a ele informações e conhecimento para que entenda dos mais variados e importantes assuntos, armando-o para um embate contra governos e grandes empresas.

Como estudante de jornalismo – e não ainda jornalista, como alguns estudantes já se precipitam em anunciar –, também desenvolvi desde cedo o senso crítico e de contestação, de sempre desconfiar de políticos e de grandes magnatas, desconfiar de tudo, de um modo geral. Supondo-se que eu assista a uma notícia imparcial de um conflito governo vs. povo, ou grande empresa vs. povo, provavelmente eu defenderei primeiro o povo, para depois então procurar entender o contexto da briga.

Entretanto, cada vez mais a população brasileira me irrita. Obviamente que não é o povo como um todo. Apenas uma parte que, embora correta em suas reivindicações, as realiza de modo quase covarde, tanto em âmbito nacional – ao protestar contra o Governo Federal – quanto a nível estadual e municipal.

A cada ano surgem novas ferramentas ligadas à internet que facilitam a obtenção de conhecimento e a comunicação global, ou seja, informações de Brasília ou do município onde a pessoa vive chegam ao mesmo tempo com igual velocidade, e o receptor tem em mãos a arma necessária para cobrar do poder público. O problema é a maneira escolhida para fazer essa cobrança: o Facebook.

Claro que as redes sociais são importantes. No Brasil, o Facebook é uma ferramenta que quase toda a população urbana possui, e que até à zona rural está chegando aos poucos, de modo que é verdade que uma reivindicação/causa possa ganhar força e adeptos, chegando aos olhos do poder público e fazendo-o agir. Só que isso nem sempre acontece.

Afinal, o que incomoda mais um político: ofensas baseadas sobre uma notícia contrária compartilhada milhares de vezes no Facebook ou uma avenida comercial fechada? Publicações com fotos no Facebook ou o centro administrativo cercado por manifestantes? Até aqui, ainda não mencionei a falta de colhão (para usar um termo clássico) – apenas a falta de vontade. Porque é mais fácil manifestar no sofá de casa (pelo Facebook) do que sair sob sol forte ou chuva, caminhar alguns quilômetros e se expor nas ruas. É mais cômodo e menos perigoso.

Mas a falta de colhão o jornalista nota quando o reivindicador é um “leão” no Facebook e um “gatinho inofensivo” no gabinete, no programa de rádio, frente a frente com o Executivo. Das duas uma: ou o manifestante se acovardou ou a reclamação não era assim tão racional, tão fundamentada, e foi só mais um post escrito no Facebook para chamar a atenção e ganhar algumas curtidas. Só que como as coisas no Brasil não estão às mil maravilhas, a conclusão para a maioria desses casos é óbvia: falta coragem para o povo.

Henrique Cisman é estudante de jornalismo e assessor de imprensa da Prefeitura de Socorro.

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