Porque não pensei o suficiente

Em um dia nublado, eu estava pensando em como algo é formado. As gotas de chuva batiam na minha janela como quem está parindo. Eu só observava calmamente e continuava pensando… Com minha blusa de lã me agarrando como um namorado em começo de relação, eu ia bebericando meu café com leite e refletindo sobre a existência.

Eu me sentia um pombo sentado em um galho, calmo e sozinho. Com apenas 14 anos e já tinha tantas questões “de adulto” na minha cabeça. Tantos dramas e crises que só iam aumentar. Mas continuei lá “matutando”, que é uma expressão mais caipira de se dizer, mas eu gosto, afinal, nasci em uma cidade do interior.

Lembrei de quando estava na sexta série, os colegas de sala iam jogar bola com os outros e eu preferia ficar lendo na hora do intervalo, viajando entre histórias e pensando em como a humanidade conseguia continuar existindo até hoje. Tudo que lia tinha algum conflito, pegava os livros e o que mais gostava era a confusão. Era uma pessoa sozinha, mas que adorava conhecer os problemas dos outros naquele monte de páginas, amava olhar os momentos por meio das janelas e sempre me perguntava: “por que viver entre problemas se podíamos ser pacíficos?”

A cena da janela da biblioteca do outro dia foi duas meninas brigando. É incrível como nessas horas os jovens se transformavam em animais irracionais. Só ouvia aquela gritaria imensa e os loucos olhos dos infantes jovens perseguindo as duas gladiadoras. “Briga, briga, briga!”, gritavam todas aquelas crianças que se achavam gente grande. Quando não estavam brigando entre si por algum joguinho, era por conta de um namoradinho ou namoradinha. Uma coisa tão comum…

Foi aí que ouvi meu nome: “é tudo culpa daquele menino!”. Meu coração parou, o que era minha culpa? Eu que ficava o tempo inteiro na biblioteca sem atrapalhar ninguém. Me levaram para a diretoria. E por que eu tinha causado a briga? Porque deixei meu estojo na beira da carteira, não achei que ele iria parar no chão, que alguém escorregaria e no fim quebraria o lindo vaso de flor de outra colega. Tudo porque não pensei o suficiente, fiquei viajando em meus pensamentos.

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